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[ 21.05.2010 ]

E se eu te amasse um dia, pequeno e calmo, minúsculo e leve, no vento que desaprendeu o caminho, que vaga nos becos, que se perde nas curvas, que se espalha no rio, será que teus dedos descobririam meus cabelos, tuas mãos achariam minhas pernas debaixo do vestido, tua voz resistiria ao barulho das árvores? E se eu te amasse um dia, alto e amplo, grande e maior, junto ao céu, numa asa, contra o sol, solto e livre num vôo silencioso de pássaro, será que teus olhos se juntariam aos meus num horizonte improvável, teu riso seria alto outra vez menino, teu peito se encheria de felicidade inédita? E se esse dia não chegasse, será que um dia tu perceberias que tens de mim o vento, o caminho, os becos, as curvas, o rio, o céu, a asa, o sol, o vôo, o pássaro, o horizonte improvável, o riso, o menino, a felicidade esperando para ser?

Escrito por Ticcia às 10:38 de 21.05.2010

[ 25.11.2009 ]




A verdade, mais tola e mais simples, mais certa e mais secreta é que me fazes falta, esse vácuo, esse oco sem precisão ou contorno, sem nome ou lógica. Tu me fazes falta e me fazes carregar comigo uma ausência indefinível e perpétua, um esgar que é antes um tatear no vazio do que um estender de mão em direção a algo. Tu me fazes falta, me cavas um buraco, pões em meu rosto um borrão que não me desfigura, antes me torna um enigma para mim mesma. E venho me definindo e me reconfigurando ao redor disto: da tua falta. Sou esta que se ressente da tua ausência sem saber mais sequer como é a tua presença, que forma tem o teu corpo, qual o cheiro do teu hálito, qual a cor dos teus olhos, que gosto tem a tua boca assim que despertas. E no entanto sei disso: me fazes falta, essa falta ampla e completa que toma o dia cada vez que me vem o teu nome, essa falta que abre uma fresta no tempo, que suspende os ruídos do mundo, que modifica a direção do vento e que toma o centro de mim e ao redor da qual eu brinco de ser uma outra, que eu inventei para parecer que continuei vivendo.



Escrito por Ticcia às 08:03 de 25.11.2009

[ 14.01.2009 ]

Às vezes tu me habitas como ruídos a uma casa,
como marcas a um rosto que por elas se define
e te lembrar é voltar ao que há de mais meu em mim mesma,
à parte de mim mesma que me revela e me assombra.

Às vezes eu quase te esqueço,
quase te perco
e quase sou completamente triste
e quase sou completamente outra
sem a interrogação onipresente dos teus olhos,
sem a incompreensão cúmplice da tua voz.

Estás em mim e não há nada a fazer,
mesmo a meio da noite,
quando és um vazio cheio de pontas,
mesmo a meio da frase,
quando és um gole de ar no lugar do teu nome.

Tu és meu porque de ti sou feita
e negar-te a mim seria parir-me ao contrário.

Aceito assim meu ofício de habitar-me tu -
ainda que a mim nunca regresses,
mesmo que de mim jamais tenhas partido.

Escrito por Ticcia às 09:28 de 14.01.2009

[ 24.11.2008 ]

Tenho-te em tuas umidades, no calor do teu abraço e nas gotas de suor que se espalham pelo teu corpo. Tenho-te em tua pele lisa, teus cabelos colados, teus pêlos grudados, teu visgo, tuas águas, teus caminhos de charcos, os pequenos rios no teu pescoço, o sabor salgado do lóbulo da tua orelha, tua testa brilhante, tuas narinas abertas, tuas pupilas dilatadas. Tenho-te em alta temperatura misturado a mim, confundido em líquidos e sumos, sede e fonte, mar em onda, céu de chuva. Tenho-te emaranhado e deslizante, em vapor e respingos, em poros abertos, em cheiro de bicho, em cio de gente. Tenho-te na língua que colhe o gosto, nos lábios que escorregam, na boca que dança lúbrica por frestas molhadas e se embriaga de essências profundas, de perfumes e cansaços. Tenho-me docemente embebida por ti.

Escrito por Ticcia às 10:56 de 24.11.2008

[ 31.10.2008 ]

Será que sabes, meu amor, que em mim algo amanheceu, que entre a tarde e a noite, não há sol que se ponha, não há mais escuro que vingue, que dentro dos meus olhos o dia não envelhece?

Será que adivinhas, amado meu, que enquanto dormes, meu sonho desenovela a noite e sua trama de estrelas para cobrir teu sono e fazer mais leve o tempo?

Será que ouves, meu amor, essa língua confusa que falam minha mão sobre teu peito, meus olhos fechados imersos no cheiro que tem a tua pele, meus dedos enredados em teus cabelos, essa língua que compõe, cada vez que te toco, uma nova música com uma nova harmonia por todo meu corpo?

Será que entendes, amado meu, que habitei com meus medos os mais terríveis precipícios e que teu olhar me lança pontes que eu nunca soube que pudessem existir?

Será que sentes, meu amor, que entre tuas mãos todas as minha pétalas se abrem e posso encontrar vivo o perfume da minha terra e de todos os meus rios?

Será que percebes, amado meu, o amor imenso que te entrego todos os dias, misturado às coisas mais minúsculas, aos momentos mais pequenos, a cada gesto imperceptível?

E ainda que me digas que não, eu sigo te amando assim, sem ruído, delicamente, surpreendendo-me a mim a cada instante com a perfeição simples que se reinventa e multiplica, que nasce para ser tudo isso e a isso ser alheia e nem se dar a conhecer, porque simplesmente não precisa de mais nada além de si e de nós dois.

Escrito por Ticcia às 12:04 de 31.10.2008

[ 22.10.2008 ]

Foi quando tu chegaste que descobri meu solo e minha pátria, que deixei o exílio e dei um nome à terra de que sou feita. Porque tu tens uns olhos que se perderam no mar e voltaram depois das tempestades com a dor de quem mais uma vez pôde ser salvo. Porque teus braços me resgataram, neles desfiz minhas fronteiras e me tornei contigo um mesmo horizonte que junta infinitos de céu e água. Porque tua voz me conta coisas outras enquanto falas e tu sabes o que eu ouço e não temes que eu saiba sobre todos os teus medos. Porque tu dizes meu nome de olhos fechados, afundado em minha carne e a noite toda lateja dentro de mim e o ruído do mundo cessa para que eu possa me lembrar só da tua voz dizendo o meu nome longe de todas as coisas. Porque tuas mãos falam a língua da minha pele e enfeitam meus cabelos de pequenas conchas e musgos para que eu encontre os sentidos que eu supunha naufragados para sempre. Porque eu já não poderia me entregar a mais ninguém sem voltar a ser estrangeira em mim mesma, sem ser de novo uma estranha atrás de meus próprios olhos, sem desertar para sempre do meu corpo.

Escrito por Ticcia às 09:36 de 22.10.2008

[ 27.08.2008 ]

Descubro a fome que desde sempre quis que me habitasse, que desde sempre esperei tomar meu corpo e o seu de dentro, uma fome que encontra saciedade e mais de si porque saciada, uma fome que se extingue e renasce porque pôde ser extinta. Gozo em mim a fome e gozo mais seu aplacar, porque a possibilidade de ser aplacada a define como a fome pela qual eu esperei por tanto tempo faminta daquilo que não se fazia, daquilo que de tão raso, era o suposto inalcançável, daquilo que de tão incompleto, parecia a suposta completude. Tenho enfim a fome que finda e que em si se refunda, não para me por a procurar além, mas para encontrar-me em mim. Bendita seja esta fome saciada-a-saciar que me apascenta e liberta, que me enaltece e amplia. Encontro enfim a fome de mim mesma, desta de mim mesma que pude vir me fazendo, que tenho sido, que descobri comigo desde que tu me trouxeste contigo.

Escrito por Ticcia às 04:04 de 27.08.2008
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